
Danielle Cândido
Os pais são os primeiros mestres, referência para a vida inteira. Por isso, neste Dia dos Pais, compartilhamos o relato da estudante do curso de Medicina da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), Mariane Araújo de Almeida, que se inspira no exemplo do pai-avô, João Bezerra de Araújo, para correr atrás dos próprios sonhos. É uma história emocionante sobre o poder transformador da educação transmitida de pai para filha, que vai muito além do laço sanguíneo.
Um laço de amor para realizar sonhos
“Nunca desista dos seus sonhos”. Esta foi a frase escrita num folheto evangelístico que meu pai-avô recebeu numa manhã, enquanto caminhava pelas ruas da cidade de Rio Largo. Foi nessa mesma cidade que, em 1993, ele recebeu uma bebê com meses de nascida, vinda de São Paulo, que até hoje ele conta que chegou “empacotadinha numa caixa para bebês” da companhia aérea. Aquela menininha era eu, que seria criada como filha pelo meu avô. Desde então, seu João me amou como a filha mais nova.
Foi ele que trabalhou incessantemente para me criar, me sustentar. Houve momentos em que enfrentamos dificuldades e minha mãe relata que ele chegou a bater na porta de mercearias, pedindo para comprar uma lata de leite, pois havia um bebê em casa precisando. Levou alguns “nãos”, mesmo sendo conhecido na cidade como um homem de palavra, mesmo empregado numa usina, mesmo prometendo pagar assim que recebesse seu salário do mês. Não é fácil criar um bebê que não contava com a ajuda financeira de mais ninguém. Apesar das limitações de recursos, eu fui crescendo sob um teto de amor, proteção e cuidado.
Seu João me matriculou na escolinha aos 3 anos de idade. Ele me ensinou a andar de bicicleta e nunca deixou faltar meu lanchinho. Principalmente um Danone de garrafinha que eu lembro até hoje. Seu João me apresentou Jesus: seu melhor amigo! Ele me levava à igreja toda arrumada, com laço no cabelo, vestido redondinho e sapatos brancos. Segurava a minha mão e dizia a todos: esta é a netinha que crio como filha. Eu fui crescendo e vendo todo o esforço do meu pai-avô. Sempre me ensinando sobre a Bíblia e me ajudando em continhas de matemática. Tenho lembranças incríveis das nossas viagens de trem até o Centro de Maceió, do picolé rosa que vendia na estação e dos navios atracados no Porto.

Estudei em escola pública do estado e seu João sempre me incentivou a buscar o meu melhor mediante os estudos, mesmo ele não tendo conseguido estudar e, ainda criança, ter sido cortador de cana. Ele sofreu muito no campo, mas sempre foi meu maior incentivador nos estudos. Cheguei ao ensino médio, consegui ser aprovada no curso integrado de Química no Instituto Federal de Alagoas (IFAL), graças à força que ele me passou. Era ele que me levava aos pontos de prova do Enem e da Uncisal… e por 6 anos isso se repetiu.
Ele sempre me esperava sair da longa e cansativa prova que era o vestibular. Lá dentro, eu estava tentando Medicina. Lá fora, estava meu único fã. Quando eu saía da prova, exausta, olhar para ele me esperando era o que me mantinha de pé. Sou fruto das orações do seu João. Ele foi a primeira e a única pessoa que mais acreditou em mim e sempre dizia: “Entregue o caso a Deus, minha filha. O Senhor tudo pode fazer. Se é o seu sonho, é o meu também. Eu vou te ver médica”.
Durante as tentativas para o vestibular, nossa casa própria chegou a desabar em um lado por falhas na construção. Entrava água pelos espaços abertos e molhava meu quarto. Eu dormia com medo daquela parte aberta. Morávamos em uma casa sem boa estrutura. Mesmo assim, eu continuei estudando e ele dividindo o dinheiro de comprar o pão com as passagens de ônibus para que eu viesse estudar em Maceió, pois eu tinha ganhado bolsas de estudo em cursinhos.
Eu passava manhã e tarde nos cursinhos, muitas vezes somente com o dinheiro da passagem ou com um vale transporte. Mas, eu sempre lembrava que estava ali por um propósito maior: por mim, pelo meu pai-avô. Eu chegava à noite e lá estava seu João, me esperando no ponto de ônibus. Ele foi muito criticado até por parte da família, que dizia que ele me dava uma certa mordomia, afinal, com mais de 20 anos, eu deveria estar com carteira assinada. Eu comecei a trabalhar em locais com flexibilidade de horário porque meu foco era estudar e somente o seu João entendia isso.
Alguns vizinhos diziam a ele: “Sua neta sonha alto demais. O senhor numa situação financeira dessa, ainda fica dizendo que ela vai ser médica. Diga a ela que foque no trabalho”. Algumas pessoas da família também chegaram a dizer: “Não vai dar certo nunca. Medicina é coisa de rico, sonhar não coloca comida na mesa”. Mesmo assim, a cada “não” nos resultados, meu pai-avô estava ali comigo, dizendo, “tenta outro ano. Vai dar certo, minha filha”.
Certo dia, ele chegou em casa com esse folheto evangelístico que entregaram a ele, no qual estava escrito “nunca desista dos seus sonhos” . Ele me entregou e disse que lembrou de mim naquele momento, como se fosse um sinal de Deus o fato de alguém tê-lo parado na rua para entregar isso. O seu João tem intimidade e comunhão com o Senhor Deus e sempre apresentou minha vida em suas orações. Ele me consagrou ao Eterno. Foi através dessa força que veio do Alto que eu estou aqui e serei médica.
No dia da minha aprovação, o abraço apertado misturado ao choro foi dado no seu João. Nosso carinho e cuidado um com o outro faz qualquer pessoa por perto se admirar. Temos um laço de amor imensurável. Ele é a minha maior riqueza, a pessoa que mais amo no mundo e com quem sou mais parecida. Foi ele que entrou comigo na Cerimônia do Jaleco da Uncisal, a instituição que tanto amo e que era o nosso sonho!
O meu pai-avô, João Bezerra de Araújo, tem 86 anos e eu estou cursando o 4º ano de Medicina. Creio que Jesus irá permitir que ele esteja com saúde no dia em que eu me formar Médica pela Uncisal. Ele merece isso mais do que eu! Meu pai-avô é minha referência de fé e de resiliência. Gratidão ao meu velhinho, meu grande amor e meu Pai. Mais importante que o título de “Dra.” ou de Médica, o maior título que possuo é ser a neta-filha do seu João. Foi graças a ele que eu realizei o meu maior sonho!
Mariane Araújo de Almeida, estudante do 4º ano do curso de Medicina da Uncisal
