
Professores e pesquisadores se reuniram na Uncisal
A Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) iniciou em 2016 os primeiros estudos sobre os efeitos do vírus da zika em crianças, com enfoque maior na audição. Coube ao Laboratório de Audição e Tecnologia (Latec/Uncisal) encabeçar o levantamento, que resultou em artigos acadêmicos, trabalhos científicos e em uma tese de doutorado. Em uma das apresentações internacionais, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), os pesquisadores alagoanos chamaram a atenção de pesquisadores da Universidade Vanderbilt, em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos.
Na ocasião foi firmado o primeiro convênio entre as duas instituições de ensino, aprovado pelo órgão equivalente ao Ministério da Saúde dos Estados Unidos (NIH), para estudar de forma detalhada os impactos da infecção na audição e cognição das crianças com microcefalia e, então, estabelecer diagnóstico e tratamento mais adequados para esses casos.
Há duas semanas três professoras da Universidade Vanderbilt (EUA) estiveram na Uncisal para acompanhar de perto o estudo desenvolvido pelo Latec/Uncisal. Participaram da comitiva a Profª. Dra. Linda Hood (coordenadora internacional do projeto), Profª. Dra. Alexandra Key e Profa. Dra. Melanie Schuele. De acordo com Pedro de Lemos Menezes, coordenador local da pesquisa e um dos líderes do Latec/Uncisal, os recursos disponibilizados pelo NIH estão sendo investidos em Alagoas, sob coordenação da Uncisal, e em São Paulo, sob coordenação da Universidade de São Paulo (USP), campus Ribeirão Preto.
Segundo ele, os valores estão sendo aplicados na aquisição de equipamentos, na estruturação de projetos, na realização de exames e até mesmo no transporte e na alimentação dos participantes da iniciativa, com a proposta de mapear, compreender e futuramente tratar as sequelas da síndrome congênita do vírus da zika.
O professor e pesquisador Pedro de Lemos Menezes explicou que o primeiro convênio com a Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos teve pouco mais de R$ 500 mil para um projeto de aproximadamente um ano. O foco principal era estudar crianças com microcefalia cujas mães tinham tido Zika.
“Só que na oportunidade a gente avaliou também crianças controles, que eram crianças típicas, sem nenhuma alteração, e também crianças cujas mães tinha sido expostas ao vírus, ou seja, eles pegaram Zika, mas os filhos não tinham nenhuma alteração. Ou seja, a gente tinha um grupo chamado expostos, que eram esses que não tinham um perímetro cefálico grande, alterado, mas as mães tinham tido contato com os Zika vírus”, explicou.
Segundo ele, no estudo foi possível descobrir que 70% das crianças expostas tinham alguma alteração cognitiva, ou cortical, eletrofisiológica, ou auditiva e de fala, alguma dessas, ou todas, ou pelo menos uma dessas.
O pesquisador do Latec/Uncisal destaca, ainda, que em 2024 foi iniciado um novo estudo no Brasil para analisar 75 crianças típicas, normais, controles, e também 75 crianças expostas. Serão avaliados a audição e toda a parte auditiva, incluindo a parte eletrofisiológica e cognição também do ponto de vista eletrofisiológico, a parte cognitiva, feita por um psicólogo, e a parte de fala, feita por um fonoaudiólogo.
“Serão 75 crianças controles e 75 crianças expostas, que serão acompanhadas durante 5 anos. Nesse momento estamos no ano 1 e as representantes dos Estados Unidos vieram para o Brasil para fazer uma visita técnica, olhar o andamento das pesquisa, acompanhar como estão sendo feitos os testes”, completou.
Pedro de Lemos afirmou que dois milhões e meio de reais foram totalmente financiados pelos Estados Unidos e que os pesquisadores brasileiros são contratados pela universidade americana através da bolsa de pesquisa. “A gente paga desde o transporte da criança de onde ela estiver no estado até a universidade. E se por acaso o teste se prolongar além de um período, o almoço dela e do acompanhante também é pago”.
As ações prioritárias do novo projeto são de acompanhamento em três vertentes: desenvolvimento auditivo, desenvolvimento da linguagem e desenvolvimento cognitivo. Isso tudo com vistas à intervenção futura. “Quando detectarmos o problema, vamos encaminhar para tratamento, mas nós queremos saber se o problema realmente persiste e por quanto tempo ele vai perdurar”, disse o pesquisador da Uncisal.
Ele ressalta ainda que os equipamentos adquiridos são caros e estão sendo usados nos horários estabelecidos, que atualmente são duas vezes por semana, sendo o dia inteiro de avaliação. Nos outros horários os equipamentos já podem ser usados pelos pesquisadores em outros estudos com o Mestrado e Doutorado da Uncisal.
Projetos Futuros
No Brasil apenas a Uncisal e a Universidade de Ribeirão Preto estão equipadas para realizar o estudo sobre Síndrome Congênita do Zika Vírus. Pela Uncisal, os professores e pesquisadores Pedro de Lemos (coordenador local) e Kelly Cristina Lira de Andrade trabalham no projeto. Durante visita das professoras americanas, a professora Ana Cláudia Frizo (vice-coordenadora local), da Unesp Marília, também esteve presente para acompanhar a comitiva com as professoras americanas.
“Durante a visita pensamos em projetos futuros. Vamos fazer um novo projeto ainda maior com as crianças que nascerem em Alagoas para que elas tenham um acompanhamento audiológico todo também financiado pelos Estados Unidos. Estamos em negociação com esse outro projeto atualmente”, disse Pedro de Lemos.
Ele destaca que após o contrato de cinco anos para a pesquisa finalizar, a Uncisal passa a ser a detentora dos direitos dos equipamentos. “Vamos poder continuar a estudar com equipamentos de ponta. A população alagoana é beneficiada de várias maneiras, primeiro porque a gente está atendendo e acompanhando 150 crianças gratuitamente. Elas recebem todos os exames realizados, cópia, são exames caros. Se fossem realizados no serviço privado esses exames custam em torno de R$ 5 mil reais”, completou.
O pesquisador afirma que todo o estado de Alagoas será beneficiado porque será possível descobrir o que acontece com essas crianças, se de fato confirma que elas têm algum tipo de alteração, seja de fala de audição ou de cognição. “Elas serão acompanhadas e reabilitadas aqui na universidade. Esse é o projeto de pesquisa que tem mais recursos da Uncisal e é o único que tem financiamento 100% estrangeiro, ou seja, o Brasil vai ser beneficiado e o estado de Alagoas também ganha com uma pesquisa importante e sem gastar nada com isso”, concluiu o pesquisador da Uncisal.
